... o real cabotinismo
É certo que o assunto da data das eleições está, por natureza, arrumado: o Presidente da República, depois de o Governo ter marcado as autárquicas para 11 de Outubro, e apesar de não ser essa a sua opinião, com bom senso e correcção institucionais, resolveu marcar as legislativas para 27 de Setembro, respeitando o que todos os partidos defendiam, excepção feita ao PSD.
Entretanto, como acho que certos temas políticos não devem ser consumidos à moda do fast food, era minha intenção ter publicado mais cedo um «post» sobre o último artigo de António Barreto no Público de sábado , o que não foi possível por impedimentos que não vêm agora ao caso. Mas preferia que assim tivesse sido, porque agora já Fernando Penim Redondo o publicou na íntegra e sem qualquer comentário seu, o que faz temer que o artigo de Barreto o tenha favoravelmente impressionado.Como António Barreto, logo no título, rotula de «futilidades» toda a discussão sobre a simultaneidade ou não das legislativas e autárquicas, debal de se procurará em todo o artigo uma qualquer opinião a favor de um coisa ou de outra porque um comentador da sua categoria obviamente que não se dá ao trabalho de opinar sobre a escolha entre «futilidades».
Abro aqui um parêntesis para explicar que não tenho nada contra a heterodoxia quando corresponde a convicções sólidas e estruturadas sobre um assunto mas que já detesto (e não sobram casos no panorama mediático português) de hetedoroxias como composição de imagens ou de personagens (estão todos a soprar para ali, então eu vou soprar para acolá). E, neste último caso, é muito curta, como o artigo de António Barreto ilustra, a distância que vai entre as heterodoxias fingidas e calculadas e o puro e simples cabotinismo.
Na verdade, o que o artigo de António Barreto penosamente ilustra é que um sociólogo e comentador que tanto escreve e se diz preocupar com a qualidade da democracia considera uma «futilidade» discutir se as legislativas submergiriam ou não quase totalmente o debate clamorosamente específico das eleições locais, se em alguma medida pressionariam para uma uniformização de voto nas duas eleições (contrariando portanto diferenças anteriores historicamente registadas) e, subsequentemente, se ambas as coisas seriam compatíveis com uma sã concepção dos actos eleitorais como digno território da soberania dos eleitores e não como rituais que é preciso despachar a qualquer custo.Dir-se-ia portanto que, para António Barreto, esta seria uma questão que bem se resolveria pelo sistema de moeda ao ar.
Também no artigo de António Barreto perpassa ao de leve a ideia de que os «interesses dos partidos» seriam uma coisa que não mereceria não grande respeito ou compreensão se é que não seriam mesmo um sinal de egoismo perante valores mais elevados. Se for esse o pensamento de Barreto, então é caso para dizer que ora aqui está uma limitada concepção de um um democracia de raiz pluri-partidária.
É certo que, acertadamente, nenhum dos partidos opositores da simultaneidade, incluindo o PCP, jamais neste debate sairam do domínio dos príncipios, gerais e decisivos, da transparência, da dignidade própria de cada acto eleitoral, da escolha informada e específica dos eleitores em relação a distintos actos eleitorais.
Mas será que António Barreto, ao fim de 33 anos, ainda não descobriu que, na história eleitoral portuguesa, há um caso, absolutamente singular e sem qualquer equivalente nacional, de uma coligação que, desde 1976, tem sempre muitos mais votos em autárquicas do que em legislativas e que essa diferença foi de mais 156 mil votos nas autárquicas de 9.10.2005 do que nas legislativas de 20.2.2005 ? E sendo esta uma verdade eleitoral e um reflexo prolongado da vontade dos eleitores, será um crime ou uma «futilidade» manifestar, não só mas também por isto, uma viva oposição ao que porventura pudesse afectar ou alterar esta realidade socio-político ?